Corpos: o relicário de um tempo

“Mas ele falava do templo do seu corpo.”João 2:21

Ano da exposição: 2021

Um santuário pelo qual materializamos ideias, crenças, lutas e movimentos. O corpo como templo, que se transforma, que teme o invisível, que transcende barreiras para alcançar o sentido da vida. A materialidade desse corpo, seu significado e presença etérea e física, nunca esteve tão em voga. Na arte, no entanto, tal discussão sempre esteve presente, a partir das noções de corpo construído, mas também da destruição do mesmo. Do ideal de perfeição e da constituição de uma cultura humanista baseada na razão e na ciência até a representação do corpo divino, como crença e louvor. Tais criações e suas dicotomias são o fio-condutor de “Corpos: o relicário de um tempo”, um recorte pelo vasto acervo da Galeria de Arte Ipanema, que celebra seus 55 anos de existência reunindo produções que tratam de um tema tão intrínseco da arte quanto atual. 

O modernismo, coração da coleção, discute com potência tais preceitos. O movimento, que trata da experimentação de formas e técnicas como caminho para a libertação da criação, norteia reflexões sobre como retratar tal corpo e suas modificações com a industrialização e o advento de técnicas distintas de representação do humano, como a fotografia. Como símbolo da expressão das diversas camadas da realidade de um tempo estão as pinturas de um dos mestres do movimento no Brasil, o carioca Di Cavalcanti. A fusão de traços, cores e formas sinuosas exibem o cotidiano de tais corpos em seu mais puro joie de vivre, exaltando a cultura e a alegria do nosso povo. Em outra direção, as figuras femininas e seus encantos, agora geometrizados, pontuam a exposição pelos traços de seu conterrâneo e contemporâneo Milton Dacosta também produzidas nos anos 60, década imersa na visão modernista.

Caminhando pelo espaço entramos em contato com a tridimensionalidade dos corpos conceituais de Waltercio Caldas, linhas, proporções e plasticidades que nos levam a outros embates artísticos, como o da linguagem como exercício da arte. A leveza da matéria e do pensamento contemporâneo sobre o corpo nos faz alcançar também outros gêneros, como as formas cinéticas do venezuelano Jesús Rafael Soto, que brinca com o espaço e com a ilusão de ótica que a matéria pode nos proporcionar. Entre os mais recentes talentos que se unem à discussão estão os traços de Henrique Oliveira e as colagens de Vik Muniz, propiciando um apanhado mais completo da forma que podemos alcançar. Afinal o corpo é nosso templo e tudo se desdobra e acaba desaguando nele e por ele. 

Ana Carolina Ralston – Curadora

Serviço:

Data da exposição: 08 de junho a 04 de julho de 2021

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