{"id":1812,"date":"2020-02-09T22:08:34","date_gmt":"2020-02-09T22:08:34","guid":{"rendered":"https:\/\/galeria-ipanema.com\/?page_id=1812"},"modified":"2020-02-28T17:02:07","modified_gmt":"2020-02-28T17:02:07","slug":"exposicao-maria-leontina","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/galeria-ipanema.com\/en\/exposicao-maria-leontina\/","title":{"rendered":"Maria Leontina"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Ano da exposi\u00e7\u00e3o: 2012<\/strong><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O ESPA\u00c7O SILENCIOSO DE MARIA LEONTINA<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Cristina Burlamaqui<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Maria Leontina, na sua l\u00f3gica singular, aparentemente contradit\u00f3ria, \u00e9 dona de uma const\u00e2ncia pict\u00f3rica sem igual. Sua voz nos conduz a um universo fluido, et\u00e9reo, a uma verdade verdadeira e, ao mesmo tempo, se mostra muito ampla, embora com consist\u00eancia sempre silenciosa e t\u00edmida. Sua obra carrega uma aspira\u00e7\u00e3o art\u00edstica precisa, desvinculada da urg\u00eancia moderna de uma arte capaz de reconciliar toda a dualidade entre o figurativo e o abstrato, num di\u00e1logo silencioso de extrema delicadeza em \u201cdevaneios tranquilos\u201d, retirados dos ensinamentos de Gaston Bachelard. Assim, \u00e9 mister revisar esta obra pictural significativa da hist\u00f3ria da arte brasileira que ainda procura legitimidade e n\u00e3o est\u00e1 livre de novas descobertas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pensar o legado de Maria Leontina implica o desafio de investigar sua po\u00e9tica, revisar seu vasto vocabul\u00e1rio pl\u00e1stico, revisitar obras que criam um universo \u00fanico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sempre de acordo com sua personalidade t\u00edmida e retra\u00edda, com densa carreira solit\u00e1ria e determina\u00e7\u00e3o met\u00f3dica, Maria Leontina n\u00e3o rejeita nenhuma impuls\u00e3o criativa de dupla indetermina\u00e7\u00e3o para engendrar os fluxos de como percebemos o mundo e constru\u00edmos nosso conhecimento e articulamos as mem\u00f3rias. N\u00e3o se trata da simples aplica\u00e7\u00e3o de um sistema de propor\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas pensadas a priori, mas sim de um movimento vibrante que mostra intui\u00e7\u00e3o e sensualidade na g\u00eanese de seus trabalhos. Mesmo nas telas mal acabadas a artista se revela, n\u00e3o como \u00edcone imaculado, mas como autora de uma plasticidade que acalma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sua veia criativa se firma em um lirismo po\u00e9tico sempre al\u00e9m da emo\u00e7\u00e3o quase m\u00edstica e da melancolia metaf\u00edsica. Encontra-se no advento da contracultura, pois transita por estilos e linguagens em que faz uma opera\u00e7\u00e3o cr\u00edtica perante o legado moderno, e se mant\u00e9m em sua veracidade em que o enigma se d\u00e1 no jogo entre figura\u00e7\u00e3o e abstra\u00e7\u00e3o, sem conflitos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Paulista de nascimento, de fam\u00edlia tradicional, Maria Leontina inicia-se nas artes nos anos 1940 e em 1949 se casa com o pintor carioca Milton Dacosta, a quem admira pelo rigor met\u00f3dico da pintura. Em 1952, em viagem a Paris com bolsa de estudos, entra em contato com as tend\u00eancias abstrato-geom\u00e9tricas e, claro, traz esta experi\u00eancia para sua obra. Enquanto Dacosta realiza uma redu\u00e7\u00e3o formal de geometria rigorosa, beirando a \u201cpura abstra\u00e7\u00e3o\u201d, Leontina, em sua fase construtiva dos anos 1950 (s\u00e9ries&nbsp;<em>Os Jogos, Os Enigmas, Da Paisagem&nbsp;<\/em>e<em>&nbsp;Do Tempo<\/em>) n\u00e3o se reduz ao universo f\u00edsico da pintura de estruturas nem na teoria r\u00edgida dos jogos matem\u00e1ticos, nem na representa\u00e7\u00e3o abstrata do mundo, mas no tempo da inven\u00e7\u00e3o, do real encontro com o mundo, quando a composi\u00e7\u00e3o \u00e9 determinada e indeterminada pelos signos po\u00e9ticos justapostos, em contraste e deslocados em rela\u00e7\u00e3o uns aos outros, em diferentes ritmos de cor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cor \u00e9 o equil\u00edbrio visceral de sua composi\u00e7\u00e3o pict\u00f3rica. \u00c9 na cor que seu trabalho se coloca e se distingue, com tons e semitons e o fundo da tela \u2013 em seu interior mais abstrato \u2013 e na constru\u00e7\u00e3o de transpar\u00eancias de maneira que os planos de cor continuem a vibrar sobre os outros, numa soma absoluta de real e irreal no dom\u00ednio espiritual da pintura. Com a harmonia dos azuis, por exemplo, ela permeia com alguma ansiedade certo n\u00famero de paralelas, planos retangulares, tri\u00e2ngulos justapostos nos jogos de nuances. Na intensidade dos tons (azuis, ocres, marrons terrosos) demonstra toda a dimens\u00e3o dos planos, evidenciando a qualidade \u00fanica e maior de sua obra. No olhar da cor reside sua qualidade primordial e resumo de toda sua po\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Leontina se aproxima da arquitetura dos&nbsp;<em>Castelinhos<\/em>&nbsp;de Dacosta, mas sua constru\u00e7\u00e3o \u00e9 mais l\u00edrica, despojada da teoria racionalista do construtivismo. A simples forma de linguagem que conduz Dacosta \u00e0s estruturas dos&nbsp;<em>Castelos<\/em>&nbsp;e ritmos transportados em formas pontuais, em Leontina se desfaz na cor, que possui tempo e vida pr\u00f3prios. Os estados subjetivos de experi\u00eancia com a cor v\u00eam carregados de ritmos simb\u00f3licos e de alegorias da mem\u00f3ria, quando o visceral e a mat\u00e9ria carregam significa\u00e7\u00e3o intuitiva e imaginativa do vis\u00edvel e se determinam na cor da emo\u00e7\u00e3o que os harmoniza. A evid\u00eancia da cor \u00e9 o principal elemento, o peso da vitalidade da pintura de Leontina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como Dacosta, ela desenvolveu uma po\u00e9tica de geometria na pintura que, nela, remete e contrap\u00f5e \u00e0s constru\u00e7\u00f5es musicais de Paul Klee. E, em vez de seguir as discuss\u00f5es e regras do concretismo, se refugia em uma pintura \u00fanica, de linguagem especial. Mostra-se adepta da geometria sens\u00edvel e da dosagem da cor, como uma poesia visual; tateia o sublime de cores di\u00e1fanas, de azuis profundos em constru\u00e7\u00e3o silenciosa \u2013 o que Mario Pedrosa definiu como \u201ccorta-ventos, torres, brinquedos de crian\u00e7a\u201d e nesta profus\u00e3o de estruturas obedece a um \u201cjogo de&nbsp;<em>aplats&nbsp;<\/em>mais positivos\u201d.<a href=\"http:\/\/www.galeria-ipanema.com\/exposicoes\/23\/maria-leontina#_ftn1\">[1]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A escolha da cor se d\u00e1 pela sua experi\u00eancia sens\u00edvel. E nos trabalhos \u201dquase matem\u00e1ticos\u201d, \u201cquase geom\u00e9tricos\u201d de constru\u00e7\u00e3o imprecisa e imprevista, d\u00e1 evid\u00eancia aos tri\u00e2ngulos de cor, contrapostos a quadrados, castelos ocres, brancos sujos, pretos e lindos azuis, cor do infinito. A\u00ed, ela n\u00e3o radicaliza a alternativa n\u00e3o figurativa de seu esp\u00edrito essencialmente construtivo, persistente e vibr\u00e1til, no qual a sensibilidade da cor e a composi\u00e7\u00e3o oscilam entre o delimitado e a liberdade, a fronteira e o infinito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas s\u00e9ries&nbsp;<em>Estandartes, P\u00e1ginas, As Orantes, Os Reinos&nbsp;<\/em>e&nbsp;<em>As Vestes,<\/em>&nbsp;em refer\u00eancias m\u00edsticas \u00e0 religi\u00e3o, a experi\u00eancia crom\u00e1tica se imp\u00f5e \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o, \u00e0 intui\u00e7\u00e3o e \u00e0s formas, em plenos anos 1960. Ela deixa a r\u00e9gua e o compasso e entra na experimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ano da exposi\u00e7\u00e3o: 2012 O ESPA\u00c7O SILENCIOSO DE MARIA LEONTINA Cristina Burlamaqui Maria Leontina, na sua l\u00f3gica singular, aparentemente contradit\u00f3ria, \u00e9 dona de uma const\u00e2ncia pict\u00f3rica sem igual. 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